segunda-feira, 21 de maio de 2012

POSITIVISSIMO



O roteiro é filme ou é literatura? Há quem diga que não é nenhum dos dois. Essa impossibilidade de poder ser algo leva o roteiro, enquanto gênero textual, ao limbo da produção criativa. Para onde vai o roteiro depois de filmado? Para onde vai o roteiro que não foi filmado? Existe um processo metodológico de roteirizar uma ideia? Começa aqui uma série sequencial de entradas onde discutiremos tal processo.

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Mais um dia de sol, como todos os outros dias desde que a revolução se fez vencedora há 10 anos. Parece que não chove no país X, pelo menos nunca na conotação pessimista, nunca chove para parar, só chove para fazer crescer. É o que diz a voz na televisão no canto da sala escura e suja, cinza e aparentemente vazia; a voz alegre afirma que só chove no país X para fazer crescer, pois aquela é a terra do crescimento. A sala tem o teto pintado de preto e a única janela está cerrada atrás de grossas persianas verdes, há apenas um quase insignificante feixe de luz que se esgueira por um buraco na parede esquerda, encostada nessa parede está uma garota de 13 anos, sentada desconfortavelmente sobre uma cadeira, seus braços atados atrás do encosto, o rosto dela brilha refletindo a luz vinda da pequena TV.
Um rapaz de vinte e poucos anos anda ao redor da sala e o som de seus passos fica progressivamente mais alto, de repente este som cessa quando a porta se abre. Uma mulher, no início dos 30, entra na sala. Ela está usando um chapéu pirata e uma máscara do Batman, ela carrega uma pistola ponto 40 vermelha. Os disfarces da mulher não passam despercebidos, pelo contrário, o rapaz está irritado, frustrado e ansioso, ele esbraveja e avança na direção da mulher, mas passa direto e corta a pequena sala e termina por sentar-se aos pés da cadeira onde a garota de 13 anos dorme um sono claramente intranqüilo.
Ele parece mais disposto a continua a discussão agora que está sentado, mas a mulher segue ignorando-o mantendo o olhar sobre o relógio dourado e desgastado no seu pulso. Passados alguns segundos ela diz-lhe que mude o canal da TV, ele parece um pouco atordoado com o comando e demora alguns segundos para executar o comando que recebera; a mulher também se senta no chão e o volume da TV se torna mais alto. A imagem da TV contrasta cruelmente com a escuridão do quarto, nela um homem vestindo um terno impecavelmente branco está se preparando parar fazer um pronunciamento, ele ajusta a gravata e seu olhar é fixo e invasivo, seu sorriso é assustadoramente alegre. Ele, o grande presidente do país X, inicia o seu discurso, salda aos telespectadores, aquele não é mais um simples pronunciamento matinal, Ele está ali para falar que a ordem será mantida acima de todas as coisas e que aqueles que tentam derrubar a paz e a moral não terão suas exigências cumpridas, seu tom é calmo e sua palavra é final. Na sala a mulher brinca nervosamente com a sua arma enquanto o rapaz, com a cabeça baixa, corre os dedos no tapete sujo. A garota na cadeira começa a despertar. Finalmente, o rapaz levanta a cabeça e encara a televisão, balbucia qualquer coisa que faz com que a garota se movimente bruscamente, ela o questiona, a mulher se apressa em responder no lugar dele, mas ele balança a cabeça, pois a mulher está errada. Sangue será derramado.
Já não estamos mais no quarto escuro, mas sim numa ampla sala de conferência, há algumas pessoas se movimentando de maneira estranhamente comedida e coordenada, ao fundo da sala duas câmeras e artifícios de iluminação, o homem de terno branco desliga o seu microfone e se dirige a longa mesa no meio da sala. Senta-se no lugar de destaque, torce o pescoço e logo uma jovem, também vestida em branco, aparece com um copo de uísque e gelo. Ele pega o copo sem sequer lançar-lhe um olhar, ela logo começa a massagear seus ombros, mas ele nunca perde a postura rígida, minuciosamente treinada.
Ao fim da sala, uma porta abre violentamente e um homem numa cadeira de rodas entra, ele está vermelho e suado, como se o esforço de botar a própria cadeira em movimento já não lhe fosse familiar há muito tempo. Ele se aproxima do homem de terno branco. Olha-o como se já não o reconhecesse. É seu irmão, sangue do seu sangue, mas algo nos anos foi perdido, já não era seu irmão mais novo, mas o grande chefe do país X. Como se esse pensamento lhe desse um murro, o homem na cadeira de rodas baixa a cabeça em sinal de reverência antes de falar numa voz triste e subserviente. O homem na cadeira de rodas diz que espera ter entendido errado, que nenhuma medida extrema venha a ser, de fato, tomada; diz que sabe que o grande presidente não estaria disposto a sacrificar a própria filha, que não seria necessário, diz que o rapaz está blefando, que é só uma criança e que é hora de trazê-lo para casa; diz que os dois, a garota e o rapaz, os dois filhos do grande presidente, são sangue precioso. O homem no terno branco, o grande presidente, escuta tudo com o seu corriqueiro sorriso apertado, estende a mão e toca o joelho do homem na cadeira de roda, num gesto que se pretende reconfortante, mas nada nele inspira o menor conforto e esse, como todos seus outros gestos, parece sintético e ensaiado. O homem de terno branco pigarreia antes de começar a falar, diz admirar o coração grande do irmão mais velho, mas lembra-o que o sangue dos seus filhos é só uma gota. Diz-lhe que todos os comuns do país X são, de certa maneira, seus filhos também. Finalmente, diz-lhe que o bem maior tem que ser protegido. O homem de terno branco se levanta e deixa a sala. O homem na cadeira de rodas não se move, parado no centro da enorme sala, parece ainda mais deficiente, derrotado e cansado, tenta chorar, mas não consegue.
De volta no quarto escuro, o rapaz pressiona a pistola vermelha contra a testa da garota. Ele está tremendo violentamente. E ela chora sem fazer barulho, com as duas as mão segurando sua própria cabeça, tentando se acalma. A mulher também está na sala e manda o rapaz abaixar a arma, ele não o faz, ela se aproxima por trás e, antes que possa realmente alcançá-lo, ele se vira velozmente e agora aponta a arma contra o peito dela. Eles discutem violentamente. O rapaz termina por agarrar-lhe o braço e arrasta-a até a porta. Abre a porta e empurra a mulher para fora do quarto. Bate a porta com força e passa a chave.
Ele volta para perto da garota e senta-se no chão encarando-a. Por um segundo sua expressão fica limpa, como se não estivesse num quarto escuro cogitando a possibilidade de matar sua própria irmã, pela primeira vez se dirige a ela diretamente usando o nome pelo qual a chamava quando o mundo não estava tão partido, Joaninha. Ao som do apelido ela se encolhe, parece confusa e enojada. Seus olhos, apesar de cansados, não choram mais.
Flashs de imagens que mudam ao som de uma arma sendo engatilhada. Copos sendo quebrados. Uma garota de 6 anos e um menino de 16 deitados numa rede. Uma mulher pálida deitada numa cama chorando. Soldados marchando. Recortes de jornal. Brincadeiras de roda com homens em ternos azuis. O presidente beijando carinhosamente uma mulher. O presidente dando um tapa na cara do rapaz.
De volta ao quarto escuro, a garota grita com o rapaz. Ele parece pego de surpresa, levanta a arma e empurra contra o estômago da garota. Seu olhar determinado. Um barulho forte o distrai, a porta parece estar prestes a cair com as batidas fortes da mulher do lado de fora do quarto. O rapaz grita para que ela pare, mas o barulho não cessa e ele se levanta para destravar a porta. A mulher volta ao quarto e traz más notícias. O rapaz perde, de vez, a calma e destrói tudo que pode dentro do quarto, uma pequena mesa, a TV, alguns pratos; joga uma cadeira contra a janela. A mulher diz que eles têm que ir embora, fugir enquanto é tempo, ele diz que não pode deixar a garota para trás. Gritos inteligíveis dos três. O rapaz volta para perto da garota, mais uma vez usa o apelido joaninha, aponta a arma para a cabeça da garota. Ela grita. Ele agora aponta a arma para a própria cabeça. Parece louco e cansado. Por uns segundos se divide entre apontar a arma para a cabeça da garota e para si mesmo. A garota continua gritando. Palavras muito duras para alguém tão jovem. A mulher está andando ao redor da sala, espreitando a janela a espera de algo, se move em direção a uma caixa e retira mais duas armas. Gritos continuam. Enquanto a mulher engatilha as duas armas em meio aos gritos do rapaz e da garota.
flashes violentos de imagens aleatórias. Pessoas em um porão. A imagem do presidente numa TV. Dois jovens fazendo sexo no escuro. O rapaz tomando uma pílula entre luzes coloridas. Um campo de flores. Mulheres estendendo roupas. Crianças em uniformes. Sangue. Homens sendo torturados. Homens rindo. Jovens nuas sobre uma mesa de poker. Uma perseguição. Macas de hospital.
Mais uma vez no quarto escuro, o rapaz está ajoelhado ao lado da cadeira onde a garota está sentada. Com uma mão aponta a arma contra a cabeça dela, com o outro braço a envolve num forte abraço, soluça nervosamente, a garota está imóvel, desistente. Um barulho de vozes artificiais toma o quarto. A porta é derrubada. Homens em ternos azuis e óculos escuros entram armados, coordenados. O rapaz ainda está ajoelhado abraçando a garota. Um tiro. A mulher cai ao chão. A garota continua calada. Tudo fica escura. Mais um tiro. Um segundo e, enfim, um terceiro.

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